Durante anos, muitos angolanos olharam para a Kixiquila como algo exclusivamente nosso, uma invenção típica da nossa cultura financeira informal. Mas a verdade é que, em Moçambique, existe um sistema praticamente gémeo chamado xitiki ou xitique (aceite nas duas formas), uma forma de poupança e crédito rotativos em que participam por milhares de famílias para organizar dinheiro, investir e enfrentar emergências.
O funcionamento é quase igual ao da kixiquila: um grupo de pessoas contribui com um valor fixo regularmente, e em cada ronda um membro recebe o montante total acumulado. Sem juros, sem papelada e, acima de tudo, baseado na confiança.
A semelhança entre estas práticas mostra algo poderoso: países africanos diferentes muitas vezes criaram respostas financeiras muito parecidas para resolver os mesmos problemas. Quando o acesso ao crédito bancário é limitado, os salários são curtos e a informalidade domina a economia, as comunidades organizam-se sozinhas.
No fundo, tanto o angolano como o moçambicano perceberam a mesma verdade há muito tempo: guardar dinheiro sozinho é difícil, mas guardar em grupo cria disciplina.
Mais do que um instrumento financeiro, a quixiquila e o xitiki são também ferramentas sociais. Em muitos casos, servem para reforçar laços familiares, manter amizades activas e criar redes de apoio entre vizinhos e colegas. Em Moçambique, estudos mostram que o xitiki é visto não apenas como poupança, mas como espaço de convivência, confiança e entreajuda.
Claro que estes sistemas têm riscos. Quando alguém recebe cedo e desaparece sem continuar a pagar, todo o grupo perde. Por isso, tanto em Angola como em Moçambique, a regra é simples: quixiquila e xitiki funcionam melhor entre pessoas de confiança.
Mas o mais interessante talvez seja esta conclusão: apesar das fronteiras, moedas e histórias diferentes, muitos países africanos têm comportamentos financeiros extremamente semelhantes. Porque os desafios económicos são parecidos e quando os problemas são os mesmos, as soluções também tendem a ser.
A quixiquila não é apenas uma prática angolana. É parte de uma inteligência financeira africana mais ampla, construída por povos que aprenderam a sobreviver sem depender totalmente do sistema formal.
Curiosamente, em Moçambique, a banca e os operadores de mobile money perceberam a força cultural deste hábito e decidiram transformá-lo em produto financeiro formal. Um dos exemplos é o Xitique M-Pesa, lançado pela Vodacom, que permite aos utilizadores fazer poupanças automáticas com contribuições diárias ou semanais directamente pelo telemóvel.
O cliente escolhe quanto quer guardar, define a frequência e recebe o valor acumulado no fim do período escolhido, podendo optar por ciclos semanais ou mensais. O produto inclui ainda contribuições automáticas e reforços extra, digitalizando um comportamento que já existia informalmente na sociedade. Em Angola, apesar da enorme popularidade da kixiquila, ainda são poucos os bancos ou fintechs que adaptaram este hábito cultural em produtos de poupança pensados especificamente para a população de baixo rendimento. Isso mostra como Moçambique está, neste ponto, mais avançado a transformar hábitos populares em inclusão financeira formal seja um mercado a prestarmos mais atenção.





