Parece que essa pergunta não faz muito sentido, como assim, vender a casa e continuar a viver nela? Apesar de pouco conhecida, esta opção já existe, é um nicho muito específico no mercado imobiliário que está a despertar nas grandes cidades europeias: a venda da casa com usufruto vitalício. Trata-se de uma solução pensada sobretudo para idosos proprietários que precisam de aumentar os seus rendimentos para viver melhor, mas não querem, nem conseguem, abdicar do seu lar.
Neste modelo, o proprietário vende a casa, recebe um valor em dinheiro, mas mantém legalmente o direito de viver no imóvel até ao fim da sua vida, este negócio é intermediado por empresas especializadas e requer uma série de obrigações dos dois lados para que se chegue a um acordo .
Um ponto essencial, e muitas vezes mal compreendido, é que a casa é sempre vendida abaixo do preço de mercado. Esse desconto não é um erro nem um prejuízo escondido, reflecte a expectativa média de vida do vendedor e o facto de o comprador só poder usufruir plenamente do imóvel no futuro. Quanto maior for a idade do vendedor, maior tende a ser o valor recebido; quanto mais jovem, maior o desconto aplicado.
Por essa razão, este tipo de negócio atrai sobretudo investidores de longo prazo, fundos ou aquelas pessoas com capacidade financeira para deixar o seu dinheiro parado durante vários anos. É um mercado de paciência, previsibilidade e baixo risco relativo, e por isso considerado um verdadeiro nicho dentro do sector imobiliário. Uma das grandes vantagens para quem compra é que, enquanto o vendedor estiver a utilizar a casa, as despesas correntes, como água, luz, gás, condomínio e manutenção do dia-a-dia, continuam a ser da responsabilidade de quem lá vive, reduzindo encargos e incertezas.
Para além dos investidores, há também outros perfis interessados, neste tipo de neócio, portugueses que vivem no estrangeiro veem nesta solução uma forma de adquirir casa em Portugal a um preço mais acessível, garantindo património para regressar no futuro. Há ainda quem compre a pensar nos filhos, encarando o imóvel como uma reserva familiar de longo prazo, sem pressão imediata de utilização.
Do lado de quem vende, as motivações são quase sempre práticas e finaneiras, muitas pensões de reforma não acompanham o aumento do custo de vida, as despesas com saúde tornam-se mais frequentes e existe o desejo legítimo de viver com mais conforto e menos ansiedade financeira. Ao transformar a casa, um activo valioso, mas muitas vezes “parado” em dinheiro disponível, o idoso ganha margem para cuidar da saúde, apoiar a família, realizar projetos adiados ou simplesmente viver com mais tranquilidade, sem perder o espaço onde construiu a sua história.
Ainda não é modelo usado em Angola, tem estado a ganhar espaço em mercados afectados pela escassez de oferta e subida de preços constantes como as grandes cidades europeias Paris, Porto, Lisboa, Barcelona ou seja se a sua casa for numa zona mais remota ou em uma cidade com mais oferta de habitação, é muito pouco provável que este negócio esteja disponível.
Mas como como muitos angolanos são proprietários de casas na Europa, em Portugal principalmente, seja fruto de anos de trabalho, poupança e investimento. Com o avançar da idade, surgem problemas de saúde, custos médicos elevados e, em alguns casos, dificuldades financeiras agravadas por rendimentos instáveis ou distância da família. Para estas pessoas, vender a casa com usufruto vitalício pode ser uma forma de transformar património imobiliário em liquidez imediata, sem perder o direito de lá viver quando estão em Portugal ou sem abdicar completamente do bem.
Embora ainda pouco conhecida entre os angolanos, esta solução pode tornar-se cada vez mais relevante à medida que as famílias procuram alternativas práticas para garantir segurança financeira e dignidade na velhice.
Num contexto em que a longevidade aumenta, mas a estabilidade financeira nem sempre acompanha, soluções como a venda com usufruto vitalício mostram que é possível repensar a relação com a casa. Não se trata de “perder património”, mas de usar o valor acumulado ao longo da vida para viver melhor o presente. Porque, no fim, o verdadeiro luxo não é apenas possuir uma casa, mas ter tranquilidade para viver nela, ou graças a ela. Esta solução é interessante para pessoas que não estão apegadas a casa como o seu único bem, e têm planos de usufruir tudo que construíram e não deixar herança.